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Saberes, práticas, ensino e histórias da África e do Brasil, em perspectiva Sul

1- Apresentação do grupo e ações: Este grupo de pesquisa, filiado ao Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto, tem como proposta a formação de redes de produção educacional e académica, envolvendo as três universidades, para fins de publicação de uma revista bilíngue inglês/ português com artigos e conteúdos relativos aos temas de ensino e pesquisa das temáticas da história da África, numa perspectiva mais abrangente e interdisciplinar e em diálogo com outras academias, fora do eixo África/ Brasil, como no caso do Centro de Estudos Africanos da Universidade de Dehli, o departamento de Ciências da Religião da Universidade do Cabo e o Centro de Estudos Africanos, da Universidade do Porto. Em conjunto com esta publicação, propomos também traduções e divulgação de obras académicas, educacionais e literárias promovidas pelos centros das referidas universidades, diretamente voltados para os diálogos entre ensino e pesquisa da historia da África e do Brasil. Na sequência das atividades, destacamos como de fundamental importância, a promoção da formação e educação à distância, através da integração com redes internacionais de educação digital, a fim de promovermos a formação através de cursos e de oferecimento de subsídios académicos e educacionais para professores, agentes educadores e pesquisadores brasileiros, sul africanos e indianos. Com relação a participação do Centro de Estudos Africanos da Universidade de Dehli pudemos contar com a presença na Universidade Federal de São Paulo no ano de 2009, do Prof. Dr. Suresh Kumar, diretor desta entidade que revelou fundamental interesse na integração de projetos em parceria com a UNIFESP e demais universidades brasileiras, para a promoção de formação e intercâmbio educacional e académico bilateral. No caso do envolvimento do Departamento de Ciências Religiosas Universidade do Cabo, esta formação se coloca numa perspectiva triangular, suscitando como proposta a circulação de docentes e pesquisadores das universidades que enfocam seus estudos nas diversidades culturais, educacionais e intelectuais na África, no Brasil e na Índia. As possibilidades múltiplas de interação de pesquisadores e docentes em torno das temáticas educacionais, académicas e sociais que se referem aos estudos africanos e do Brasil e a sensibilidade e vontade das universidades envolvidas de colaborar em conjunto, nos levou a buscar o apoio do CNPq, que concedeu a bolsa de produtividade em Tecnologia e Extensão Inovadora. Tão fundamental foi a interlocução com a UNESCO, através do setor de Cultura. Para nós o suporte institucional e os diálogos e proposições que pudemos construir em conjunto, nos levaram a procurar este setor e propor ações concretas para a execução deste projeto e sua possível e necessária ampliação para o maior envolvimento de outras instituições, universidades e países.

2- Referencias teóricas e metodológicas: As aproximações entre as parcerias que envolvem a elaboração deste projeto do grupo de pesquisa, refletem sobre a relação entre essas nações, suas políticas e diversidades, a partir da importante discussão desenvolvida por Sanjay Subrahmaniam no seu artigo Historias conectadas. Este artigo analisa como o Império português conseguiu construir sua espacialidade a partir das conexões das diferentes formas dos povos locais interpretarem as relações de imperium e dominium com os lusos. Diante disso, o Império português criou um espaço integrado e globalizado, a partir dos resultados das interações locais e globais com os diferentes povos da Ásia, da África e no Brasil, traduzindo-se em formas distintas de exercício de poder e domínio. Para nós, essas conexões nos ajudaram a pensar nos processos históricos que nos interligavam e nas necessidades política e culturais preementes nas sociedades brasileira, indiana e sul africana, de englobar a diversidade cultural, étnica e política em processos contemporâneos na linha das ações afirmativas. Por estamos vivendo esses processos onde revistamos as noções nacionais de sociedade civil, utilizamos também um conceito importante que norteia a nossa reflexão conjunta, que é o de sociedade política apresentado por Partha Chartejee. Esta consistiria numa série de formas de associação que congregavam segmentos heterogéneos da população que na sua interação com o Estado conseguiriam obter benefícios e formas de inserção na esfera política possíveis para aqueles que não são cidadãos. As sociedades políticas possibilitariam, em contrapartida, aos funcionários governamentais estabelecer uma “rede de vigilância ao longo da qual eram coletadas informações sobre cada aspecto da vida da população visada.” Identificamos nos processos locais de formação superior e educação, as dificuldades e os limites da ação do governamental em incluir a diversidade cultural e étnica das nossas sociedades, no âmbito da atenção e do exercício pleno da cidadania. Diante disso, analisamos os processos políticos que incluem aqueles que não foram incluídos no exercício pleno da cidadania, e as resistências e processo locais de construção de identidades e reivindicações coletivas, como no caso das ações afirmativas no Brasil para os jovens afro descendentes e indígenas, a inclusão de estudantes de castas mais baixas na Índia e a inclusão e diversidade das línguas dos povos nativos africanos no ensino universitário na África do Sul. A partir dessas perspectivas mais gerais, propomos atividades de pesquisa e investigação no sentido de identificarmos estratégias e escolhas locais para a construção dos saberes ligados a formação superior e como a reflexão sobre a subalternidade de alunos excluídos nas políticas de promoção de acesso as universidades e ao mercado de trabalho, podem contribuir para uma reflexão sul /sul sobre os mecanismos de produção de subalternidade social e as estratégias dos estados de incluir as diversidades hierarquizadas dessa forma nos processos educativos. Ensejamos promover a necessária crítica intelectual a essa dinâmica e a busca de alternativas e diálogos teóricos com uma fortuna crítica mais apropriada para favorecer a produção de políticas educacionais de formação superior mais equitativas e promotoras de uma maior inclusão da diversidade cultural e étnica dentro dos processos democráticos de vivência da cidadania.

3- As ações do grupo de pesquisa: a) Seminários e grupos de estudo: -Grupo de estudo Saberes ao sul: historiografias em dialogo, coordenado pelos Professores doutores Fabio Franzini e Patricia Teixeira Santos. Esta atividade é desenvolvida em reuniões quinzenais onde são analisadas a produção de historiadores que se preocupam com temáticas que marcam a escrita e a pesquisa da História, a partir da orientação epistemológica da produção sul/sul do conhecimento nas ciências sociais. b) Atividades de extensão comunitária: Oficina Tradições e Oralidades afro-brasileiras e o Maracatu do Baque Virado – atividade de formação voltada para jovens, adolescentes e para a formação dos professores da escola fundamental, sob a coordenação dos alunos Camila Trindade, Luna Borges Berruezo e Otavio Bontempo, com apoio da Pro Reitoria de Extensão Universitária da UNIFESP. c) Publicações: 1-Organização da Revista Ensino e pesquisa África Brasil em contextos sul, em parceria com o Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto, com o Departamento de Ciências Religiosas da Universidade do Cabo e com o Centro de Estudos Africanos da Universidade de Dehli. Publicação semestral reunindo professores, pesquisadores das universidades envolvidas, em edição bilíngue. c) Arquivos digitais e portal: 1- Produção de Cd com acervo documental e de depoimentos sobre a memória da educação infantil em espaços das culturas tradicionais afro-brasileiras. Este se encontra em andamento e recebeu da Pró Reitoria de Extensão Universitária da Universidade Federal de São Paulo, duas bolsas PBEx que foram renovadas. 2- Promoção de arquivos digitais de memória da educação infantil nas comunidades tradicionais sul africanas e da Índia, para subsidio para ensino e pesquisa nas áreas de educação, historia e ciências sociais. Para este item, já temos o material recolhido pelo projeto de extensão, intitulado, “ Aprendendo com os Orixás”: Educação infantil na cosmogonia e no mundo social das religiões de matriz africana na cidade de Guarulhos. Este projeto tem como objetivo um levantamento fundamental de como se estrutura a educação infantil nos espaços das religiões de matriz africana (terreiros e casas) na cidade de Guarulhos. Começamos por esta cidade por ser uma das maiores deste estado da federação e por encontrar nas mesmas um grande numero de casas, terreiros e de adeptos que, há pelo menos um século, vem desenvolvendo na área da educação infanto-juvenil e que constituem elementos importantíssimos para a construção de elos comunitários e de inserção social das crianças assistidas. Além disso, temos como objetivo analisar os processos de transmissão das regras, do rito e da cosmogonia dessas religiões, compreendendo que a tradição oral é uma importante forma de construção do conhecimento, correspondendo a memória viva, que tanto nos lembrou nas suas produções o historiador Amadou Hampatê Bã, responsável por trazer e organizar arquivos orais da antiga África colonial francesa e que fez da sua autobiografia “Amkuoulell, o menino fula” uma obra e um método de pesquisa interdisciplinar para o estudo das sociedades africanas. Nesta o autor destacava o convívio que existe entre as tradições escritas advindas do Islão com a oralidade, valorizada como principal forma de transmissão de saberes, técnicas e sabedorias ancestrais. Historicamente, as comunidades de terreiros e casas de religiões de matriz africana tem importância na contribuição para a preservação de valores identitários como, resistência cultural e religiosa, contribuindo para a afirmação e a cidadania da população afro-descendente e de diferentes classes sociais com descendência étnica de origem africana no país. Pretendemos perceber como essas tradições de conhecimento, a oralidade, a escrita, a dança, o canto, as festas e a educação para valorização do universo das plantas, das ervas e dos animais se entrecruzam e constroem todo um campo de significados que educam e formam as crianças assistidas pelas religiões de matriz africana nas comunidades de terreiros. A metodologia utilizada foi a de registo de depoimentos de crianças e adultos iniciados nas religiões afro-descendentes em Guarulhos e fotos dos espaços de iniciação e celebração das crianças. Os alunos envolvidos na pesquisa Camila Cardoso Dinis e Reinaldo Amaral realizaram um importantíssimo trabalho de imersão no universo comunitário das religiões de matriz africana na cidade de Guarulhos e trouxeram informações baseadas na tradição oral e na experiência quotidiana das crianças e seus familiares nos terreiros, de como a dimensão comunitária protege e fornece instrumentais de participação e integração na sociedade política mais ampliada. O trabalho realizado por esta equipa recebeu no ano de 2011, a Menção Honrosa do Prémio Cidadania Sem Fronteiras, apoiado pela Secretaria de Ciência e Tecnologia.

 

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