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Actas do VI Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais. As Ciências Sociais nos Espaços de Língua Portuguesa, balanços e desafios. 

CENTENO (Org.), Rui & GONÇALVES(Org.), António Custódio . 2000. Actas do VI Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais. As Ciências Sociais nos Espaços de Língua Portuguesa, balanços e desafios. Papers at VI Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais. As Ciências Sociais nos Espaços de Língua Portuguesa, balanços e desafios, 2002, at FLUP - Porto.

Nota de Abertura

A realização do VI Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais na Universidade do Porto, promovido pela Faculdade de Letras e pelo Centro de Estudos Africanos, constituiu para nós uma honra e um privilégio.
Iniciados em 1990 na Universidade de Coimbra e continuados depois em S. Paulo, Lisboa, Rio de Janeiro e Maputo, os Congressos Luso-Afro-Brasileiros de Ciências Sociais tornaram-se no mais importante espaço de reflexão científica e de diálogo multicultural de especialistas das diversas ciências sociais e humanas de língua oficial portuguesa. Este VI Congresso reuniu cerca de 500 Colegas de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, S. Tomé e Príncipe e Timor Loro Sae, que quiseram partilhar, com análises críticas e fundamentadas, os seus conhecimentos, saberes, projectos e experiências profissionais em que cada um está implicado e que geram solidariedades.
Desejamos que estas solidariedades, para lá das fronteiras nacionais ou ideológicas, sejam um marco privilegiado dos Países da Comunidade Científica Lusófona, pela singularidade que os constitui e pela universalidade que os relativiza, através da indispensável diversidade de opiniões organizadas e do necessário respeito dos olhares cruzados e plurais. Com este objectivo foi constituída neste Congresso a Associação de Ciências Sociais e Humanas em Língua Portuguesa.
0 tema geral do Congresso As Ciências Sociais nos Espaços de Língua Portuguesa: Balanços e Desafios apelou para a importância da análise e compreensão dos actores sociais e dos factores humanos, numa perspectiva de inovação e de produção de sentido, no contexto das grandes mutações económicas e políticas dos equilíbrios mundiais.
Assim, privilegiou-se a construção das identidades plurais e dinâmicas no reencontro triangular com reflexões inovadoras e críticas sobre o passado e com novos olhares sobre o futuro no respeito pela variedade e variabilidade das culturas.
Este Congresso realizou-se no limiar das Comemorações do Porto Capital Europeia da Cultura, Cidade com património histórico e cultural de elevada riqueza, classificado pela UNESCO como Património Mundial.
Entendemos que a publicação das Actas deste congresso deveria ser feita com a brevidade possível, a fim de submeter os textos dos autores das comunicações à reflexão e à experiência profissional dos Colegas ausentes e dar maior visibilidade para um público mas alargado.
Nestas Actas, por motivos alheios à nossa vontade, não estão incluídos os textos das três conferências plenárias, faltando ainda algumas comunicações apresentadas nos painéis temáticos e nos grupos de trabalho.

 
 

Globalização e Contextos Locais na África Subsariana 

GONÇALVES (Org), António Custódio. 2002. Globalização e Contextos Locais na África Subsariana. Papers of V Colóquio Internacional "Globalização e Contextos Locais na África Subsariana", 2002, at FLUP - Porto.

Prefácio

No âmbito dos trabalhos desenvolvidos pela linha de investigação "Estados, Poderes e Identidades na África subsariana", integrada na Unidade I&D, financiada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, publicam-se as Actas do V Colóquio Internacional "Globalização e Contextos Locais na África Subsariana", realizado na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, nos dias 3 e 4 de Maio de 2002.
A análise de temáticas, tais como identidades políticas, sociais e culturais, conflitualidades culturais, étnicas e religiosas, cidadanias, poderes e etnicidades, cooperação e desenvolvimento, produção cultural e novos mercados, políticas contra as pilhagens do património de África, por antropólogos, economistas, historiadores, psicólogos sociais e sociólogos, especialistas em estudos africanos, foi importante, sobretudo pelo questionamento de algumas visões eurocêntricas do desenvolvimento em África e pelas rupturas metodológicas nas trajectórias e encruzilhadas de modelos conceptuais e teóricos.
Nas comunicações apresentadas neste Colóquio entrecruzaram-se duas perspectivas fortes de análise da globalização, quer como fenómeno empírico, quer como construção teórica, e como conjunção da modernidade globalizante e da pré-modernidade local. Um dos contributos importantes deste Colóquio consistiu na análise de perspectivas múltiplas e interactivas do processo de globalização, que induz diferentes produções de cultura, contrariando lógicas de dissolução ou de confrontação de identidades distintas que emergiriam de um passado, de longa duração, de mútuo isolamento. Esta ruptura radical como passado, defendida por alguns cientistas sociais chamados "pós -modernos", consubstanciaria a assunção de que, outrora, as sociedades existiriam num isolamento virtual de umas em relação a outras.
Ora esta dicotomia entre uma modernidade globalizante e uma pré-modernidade local remete para uma reformulação recente da antiga dicotomia entre "civilizados" e "primitivos". Desta visão dicotómica resultam tensões constitutivas e efeitos perversos associados, por um lado, a uma pretensa homogeneização cultural do mundo contemporâneo e, por outro lado, a uma ilusão das sociedades tradicionais, ditas "primitivas", fundamentada em oposições canónicas do pensamento sócio-politico, tais como ethnos vs polis, gemeinschaft vs gesellschaft, holismo vs individualismo.
Os africanistas deram um contributo importante para a compreensão das sociedades não-ocidentais, na medida em que tentaram pensar as sociedades estudadas em termos comparativos. O que hoje se chama "globalização pré-colonial", é uma reformulação de uma questão antiga entre os africanistas respeitante à história de África e aos seus contactos com os outros continentes. Os ocidentais tiveram tendência a pensar as sociedades africanas em termos de redes, facto devido, em parte, às descrições dos exploradores, à longa presença em África de religiões mundiais como o cristianismo e o islamismo e devido também às linguagens escritas.
O debate teórico sobre os Estados, Poderes e Identidades, associado a fenómenos empíricos de crises do Estado, crises das democracias e do desenvolvimento, mantém toda a sua actualidade e importância.
Assim, neste Colóquio, pôs-se em relevo a centralidade das estratégias sociais e culturais do desenvolvimento, sublinhando os efeitos perversos do discurso da autarcia e do isolamento, próprio das perspectivas neo-negristas, e da submissão de identidades culturais e dos direitos humanos às leis de mercado (globalização no sentido fraco).
Três desafios importantes atravessaram este Colóquio. O primeiro salientou a necessidade da adequação da racionalidade económica e da inovação tecnológica à criatividade dos valores culturais autóctones. O segundo desafio consistiu na reavaliação da globalização e das identidades colectivas.
O conceito de identidade é um conceito confuso que se refere, simultaneamente, à cultura e à sua interpretação ideológica, aos sentimentos vividos, às fontes objectivas, como a história e o território, de que se alimentam, à unidade psicológica do sujeito e ao princípio de unidade colectiva do grupo.
O objecto de debates entre africanistas consiste, por um lado, em contribuir para situar esta confusão e, por outro lado, para analisar, tão claramente quanto possível, as condições nas quais se elaboram e se desenvolvam as reivindicações de identidades, assim como o seu carácter eminentemente relacional.
A mestiçagem intercultural de sociedades, culturas e civilizações é uma constante na história humana. O paradoxo da nova globalização consiste no facto de que em vez de tornar a identidade mais fluida parece fazer justamente o contrário, atendendo ao facto de que há identidades que se convertem em fundamentalismos étnicos, nacionais e religiosos.
O processo da recomposição política na África Subsariana, nomeadamente na África Central, é essencialmente transnacional, o que significa que as fronteiras políticas actuais são artificiais e que revelam a importância da continuidade das realidades pré-coloniais.
O terceiro desafio convocou a emergência e a urgência do papel decisivo da sociedade civil na construção da liberalização política e da cultura democrática; convocou, igualmente, a análise das novas problemáticas da relação entre poder individual e poder social, entre poder único e poder múltiplo, entre consenso e autocracia.

 
 

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