SILVA, Gabriela. 2007. Educação e Género em Moçambique. 1ª ed. Porto: Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto. Original edition, Tese de Mestrado em Estudos Africanos. Do Preâmbulo Herdamos do século XX um mundo que se tornou mais pequeno dada a facilidade com que o percorremos, a forma rápida como é possível chegar das mais variadas formas aos lugares mais remotos. Mas esta nova dimensão da distância transformou ao mesmo tempo a nossa noção do mundo, transfigurando-o num espaço maior de diversidade, pois nunca como agora tivemos a percepção da sua total variedade geográfica, social, cultural e humana. Mas esta hiper densidade do diverso num mundo cada vez mais pequeno é difícil de digerir e assimilar e representa uma fonte de tensão para as sociedades actuais. Há uma certa tendência, actualmente, para se desenvolverem várias teorias do determinismo cultural, num mundo que funciona a várias velocidades e tempos, em muito fundamentadas por Max Weber (1996) e a sua explicação da ética protestante como um factor determinante para o crescimento e êxito da economia capitalista, deitando por terra aquilo que de mais importante nasceu da revolução francesa, a crença na liberdade, igualdade e fraternidade entre todos os indivíduos, que impede, assim, a legitimação de qualquer tipo de opressão de uns sobre os outros. Mas estas teorias ignoram o facto de que as culturas mudam e que raramente são homogéneas, lançando as sementes para a prática da dominação económica e cultural. A democracia é o único sistema político que, na perspectiva do mundo ocidental, defende todas as liberdades, mas hastear esta bandeira como panaceia para os problemas do mundo moderno, sobretudo no que respeita à modernização das sociedades menos desenvolvidas, representa muitas vezes uma faca de dois gumes, pois as maiorias nem sempre defendem e protegem as reivindicações de respeito e reconhecimento da diversidade cultural. Segundo a perspectiva de Del Priore (...), “o termo “multiculturalismo” designa tanto um facto (as sociedades são compostas de grupos culturalmente distintos) quanto uma política (colocada em funcionamento em níveis diferentes), visando a coexistência pacífica entre grupos étnica e culturalmente diferentes. (...) A política multiculturalista visa, com efeito, resistir à homogeneidade cultural, sobretudo quando esta homogeneidade afirma-se como única e legítima, reduzindo outras culturas a particularismos e dependências”. Nesta linha de pensamento, num mundo plural e multicultural, a necessidade de políticas específicas é cada vez mais imperiosa. Uma questão que se enquadra neste cenário e que enfrenta importantes desafios é a da desigualdade de género. Após séculos de mudanças de valores e de décadas de luta dos movimentos feministas no Ocidente, as sociedades modernas alcançaram níveis de igualdade de género sem precedentes na história (apesar de estar ainda longe o marco da igualdade) e sem qualquer comparação possível nas sociedades menos desenvolvidas. Mas o desenvolvimento e as políticas que lhe estão associadas não se podem integrar em sociedades que se encontram a uma enorme distância histórica, social, económica e cultural dos modelos e conceitos que ultrapassam os seus percursos e que lhes são alheios, como se estas tivessem seguido todos os nossos passos e partir de um conceito de cultura hierarquizada, onde a cultura ocidental deve impor os seus valores pois, “Numa perspectiva de desenvolvimento humano, todos os sistemas legais – sejam unitários ou plurais – têm de se conformar com os padrões internacionais de direitos humanos, incluindo a igualdade entre os sexos” (...). Não podemos, pois, esquecer que mesmo os Direitos Humanos são valores da sociedade ocidental e que se os quisermos seguir como linha orientadora neste labirinto de culturas e espaços, temos de estar conscientes disso e que para que os discursos políticos e as boas intenções representem acções concretas que contribuam efectivamente para o bem-estar individual e colectivo é preciso conhecer o outro, perceber o seu contexto, ensinar e aprender, numa dinâmica de troca de experiências longe de estratégias de dominação e de noções de superioridade. Não podemos promover a igualdade de género, ainda que acreditemos profundamente nesse valor, numa sociedade que se desconhece, dotados de pouca ou nenhuma informação sobre o universo de expectativas dos indivíduos, os seus papéis sociais e os seus valores. O que significa ser homem ou mulher é um dos conceitos mais variáveis do mundo, e pretender mudar comportamentos e mentalidades a esse nível implica um conhecimento profundo do outro e o recurso a estratégias específicas adaptadas a cada realidade. |
CAPELA, José. 2007. Dicionário de Negreiros em Moçambique 1750-1897. Edited by L. Electrónicos. 1ª Ed. ed. 1 vols. Porto: Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto. Da Introdução A documentação e os estudos publicados sobre a escravatura e o tráfico de escravos na colonização moderna não têm privilegiado os seus agentes. Para além de casos adornados com aura folclórica e picaresca e de um ou outro negreiro cuja fortuna, verdadeira ou quimérica, o tornou lendário, a ignorância sobre tais protagonistas da história é avassaladora. Não somente a ignorância sobre os percursos pessoais cujo interesse se reduz ao conhecimento mais aprofundado do contributo do biografado para o sentido e para o significado dos lances históricos em que esteve envolvido. Os resultados do fenómeno da escravatura colonial moderna não ficaram circunscritos nem à produção material dos escravos, nem à incidência da monda humana nas sociedades africanas e repercussões económicas respectivas nas suas terras de origem. Condicionaram os comportamentos individuais e colectivos de europeus e de americanos, interferiram decisivamente nas suas economias, foram determinantes na implantação de regimes políticos. A presença dos negreiros – presença física ou presença meramente fiduciária – constituiu um factor decisivo na consolidação política e económica do liberalismo europeu, nomeadamente em Portugal. O que se pretende com este dicionário biográfico resume-se à enumeração dos agentes do tráfico negreiro que actuaram na costa sudeste africana, mais propriamente na costa do Oceano Índico que corresponde à do Moçambique de hoje. (...) Procurei manter uniformidade de critérios ao longo das entradas. No entanto permiti-me distinguir alguns nomes pela especificidade que introduziram nessa actividade e pela repercussão particular que de uma ou de outra forma tiveram na sociedade portuguesa. São os casos: de Portugueses/Brasileiros – pela razão óbvia de terem sido os protagonistas simultaneamente do tráfico transatlântico no contexto colonial português e dos seus reflexos na sociedade portuguesa. De Franceses: porque foram os armadores dos portos franceses implicados no comércio colonial, na segunda metade do século XVIII, quem introduziu na costa do sudeste africano o tráfico transatlântico sistemático. Baneanes e outros Asiáticos que antecederam os europeus nesse mesmo comércio e o prolongaram no tempo, século XX adentro. Na perspectiva em que me coloco suponho justificar-se esta publicação. Não tanto o alinhamento de nomes. Abstraindo deles, o que representaram no espectro civilizacional mais alargado. Nomeadamente o factor financeiro. O capital acumulado e imediatamente aplicado em período curto de mutação social profunda. Como foi o caso da revolução liberal portuguesa. Que se não foi feita pelos negreiros, de muitos deles recebeu contributo material de grande alcance e outros tantos nela colaboraram directamente. O desenvolvimento subsequente, nomeadamente a formação do capital financeiro, socorreu-se abundantemente da contribuição de negreiros. Alguns dos que mais se evidenciaram, a partir do Brasil, frequentaram os portos do Índico. Estes portos, muito particularmente o de Quelimane, foram especialmente assediados nas décadas de quarenta e de cinquenta do século XIX, no auge da clandestinidade negreira, propiciadora de fortunas de fábula … que existiram efectivamente. (...) Esta será uma primeira tentativa de ordenação de nomes de protagonistas de tráfico de escravos levada a efeito sobre a costa do sudeste africano em um período que vai de 1750 a 1892. Embora esforçada, naturalmente deficitária. |