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Revista Africana Studia |
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Africana Studia nº 5  |
Editorial Tendo a escravidão e o seu tráfico constituído parte substancial da colonização moderna em África, o seu estudo não pode deixar de exigir a todos quantos se debruçam sobre a história do continente uma atenção constantemente renovada. No caso dos sistemas escravocratas que tipificaram a colonização moderna desde o século XV, esta exigência é tanto mais urgente quanto foram por muito tempo marginalizados pela historiografia portuguesa. Convocá-los à praça pública, porventura ao debate, para além de contribuir para o resgate do silêncio acomodado, alimenta a veleidade de terapia para a má consciência que o impôs. Por outro lado, discutir este problema mais não é do que retomar uma tradição da academia portuguesa, para a qual a escravatura nas colónias foi uma questão candente. Nos séculos XVI e XVII, nas universidades de Évora e de Coimbra, mestres da época dissecaram a sua razão de ser. Encararam o problema sem ambiguidades e fizeram-no de uma forma que não foi meramente especulativa já que recorreram à investigação da realidade comezinha do negócio respectivo e das situações concretas em que então funcionava o sistema. Esta curiosidade intelectual, que era também moral, nem por isso teve seguimento : nem o Iluminismo, nem outras correntes reformadoras do pensamento, da investigação e do ensino, nem os condicionalismos universitários de grande parte do século XX português permitiram a continuidade que a reflexão de Quinhentos e de Seiscentos auspiciava. Considerando que a actual fase da globalização impõe cada vez mais o estudo das raízes da história de Africa, esta ordem de razões seria suficiente para justificar o número presente mas não é a única. Ao constituir um factor substancial na implantação mundial do capitalismo, a escravatura projectou representações mentais indeléveis para além da sua existência legal, provocando uma certa confusão semântica e dificultando a clarificação conceptual. Por exemplo, a imprensa portuguesa de finais do século XIX designou frequentemente por escravatura a emigração de Portugal para o Brasil - emigração que sucedia imediatamente à que até então se fizera de África - visto as semelhanças de conteúdo parecerem mais importantes do que as diferenças formais. Tanto quanto os estudos recentes sobre o « indentured labour » permitem ver, as formas históricas do trabalho importado e comprado à distância não estão ainda definidas e as equivocidades têm-se arrastado praticamente até aos nossos dias. Pior do que isso, a própria realidade que estes conceitos em construção pretendem englobar está longe de se ter extinguido, o que também justifica que se mantenha aberta esta linha de investigação. A heterogeneidade dos trabalhos aqui apresentados reflecte a complexidade e envergadura dos problemas mas mostra também a atenção recente que uma nova historiografia está a prestar à colonização portuguesa . Deste modo, as nossas lacunas em tornar esta compilação suficientemente representativa de todos os projectos de investigação actualmente em curso constitui uma nota optimista sobre a profundidade da actual revisão. |
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Africana Studia nº 6  |
Editorial O presente volume da Revista Internacional de Estudos Africanos, Africana Studia, é predominantemente dominado por artigos referentes à construção de configurações identitárias em espaços e tempos diferentes da África Subsariana. Contrariando as perspectivas ditas essencialistas e nacionalistas, os trabalhos aqui apresentados assentam na construção de identidades numa perspectiva histórica de longa duração, como processos e como estratégias sociais, culturais e simbólicas. O primeiro artigo, da autoria de Augusto do Nascimento, analisa a procura da identidade SãoTomense e sua relação com as mutações sociais. O autor analisa, numa perspectiva construcionista e integradora, a pluralidade de referências culturais dos indivíduos e dos grupos sociais e das diversas formas de representações e manifestações sociais e simbólicas dos São-Tomenses. Trata-se de um texto apresentado no Congresso "Portuguese/African Encounters", realizado na Universidade de Brown, em 2002. O artigo de Carlos Lopes propõe-se discutir os conceitos de identidades sociais e culturais. Analisando a construção de identidades nos "Rios de Guiné do Cabo Verde", na expressão quinhentista de Alvares de Almada, e na designação contemporânea que compreende os territórios da Guiné-Bissau, Gambia e Casamance, o autor retoma vários contributos do seu livro "Kaabunké. Espaço, território e poder na Guiné-Bissau, Gambia e Casamance pré-coloniais". O artigo de Francisco Proença Garcia, "O Islão na África Subsariana. Guiné-Bissau e Moçambique: uma análise comparativa", elabora uma análise global da expansão islâmica na África Subsariana e discute as relações entre o poder colonial português e o Islão no período da guerra colonial e interpreta o papel das confrarias islâmicas na preservação de identidades locais específicas, em oposição à cultura do colonizador. Alexander Keese, no seu trabalho "Proteger os pretos: havia uma mentalidade reformista na administração portuguesa na África Tropical (1926-1961)?" discorre sobre pretensas medidas de reforma social e política da administração colonial, prosseguidas como estratégia psicológica durante as guerras de independência. No artigo "Políticas de classificação/classificações políticas: práticas políticas e lutas de classificação", Fidel Reis, conjugando a fundamentação teórica e a investigação empírica, analisa e critica a inclusão do conceito de "raça" como um dos elementos de identificação na lei do Bilhete de Identidade, aprovada pela Assembleia Nacional d Angola. Ilídio do Amaral, numa análise documental, e de testemunho recolhidos entre personalidades femininas de vários países da África Subsariana, releva as fortes desigualdades de género e o pape subalterno das mulheres. Trata-se de uma conceptualização importante sobre questões de género, para a compreensão da dinâmica da participação das mulheres africanas na vida pública e cultural. O artigo seguinte, da autoria de Armando Malheiro da Silva, analisa o perfil da obra e do pensamento de Norton de Matos, republicano e democrata, como Governador-Geral e Alto-Comissário em Angola. Norton de Matos é uma figura incontornável na história contemporânea e na história colonial. Releva-se aqui a ambiguidade da sua acção em Angola, numa tentativa de integração de diversos elementos, por vezes contraditórios: a unidade nacional transoceânica, a autonomia colonial e a construção da angolanidade. O artigo de Madalena Fonseca sobre os corredores de transporte e desenvolvimento em Moçambique, analisa a inserção de Moçambique na economia mundial no período entre a independência e as primeiras eleições multipartidárias. Elisio Macamo analisa as lógicas do ajustamento estrutural e as estratégias neo-liberais de risco, constituídas como projecto totalisante do centro em relação à domesticação das margens, bem como o papel da re-invenção da identidade de Moçambique como sujeito e objecto das ajudas externas. Por fim, Rosa de Souza Oliveira propõe-nos o estudo de duas personagens femininas, através da análise comparada de duas obras literárias: uma brasileira, o conto "Amor", de Clarice Lispector e a outra, angolana, o conto "Sexta-feira", de Luandino Vieira. Este número termina com a habitual secção de Notas e Recensões. |
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