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Revista Africana Studia |
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Africana Studia nº 7  |
Editorial Pretendendo acompanhar e, de alguma maneira, estimular o que se afigura constituir uma crescente curiosidade historiográfica pelas formas de escravatura e de prestação de trabalho da mão-de-obra africana, o Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto reuniu em colóquio investigadores que apresentaram os trabalhos ora publicados. Porque se tratava da comparação de experiências, a homogeneidade temática perdeu na limitação dos contornos mas a diversidade geográfica e de situações concretas enriqueceu a informação contribuindo para a confirmação da universalidade do fenómeno no tempo e no espaço. Na era da globalização por excelência estaremos, porventura, na melhor posição para abarcar essa mesma universalidade e darmo-nos conta da natureza dos seus fundamentos materiais e humanos. Não é sem regozijo que a iniciativa permite constatar um renovado interesse pela historiografia da escravatura africana em Portugal. À envergadura das reminiscências materiais e de carácter etnológico que essa escravatura deixou no terreno não corresponde uma investigação historiográfica susceptível de abarcar a dimensão de presença tão marcante na metrópole colonial. Os trabalhos contemplando essa área geográfica ilustram o interesse que lhe está a ser emprestado e a qualidade da resposta. O mesmo se poderá acrescentar relativamente à atitude da política oficial portuguesa face à escravatura e à sua abolição. Os problemas, nomeadamente diplomáticos, criados a Portugal foram do maior vulto e repercutiram-se indelevelmente não apenas no seu futuro de potência colonial mas sobretudo no seu devir histórico. Também a manifestação simbólica depositada no imaginário e expressa na literatura popular. A ideologização do colonialismo como facto histórico inelutável, se não mesmo benfazejo, prevaleceu-se de uma forte assunção popular. Desde o desembarque dos escravos em Lagos, espectáculo que converteu os cépticos à aventura colonial (Zurara), até ao acume da afirmação imperial («Angola é nossa», o slogan omnipresente, também cantado pelos recrutas em treino para a guerra), acções da maior eficácia nessa ideologização. O levantamento exaustivo e a análise das expressões do «imaginário colonial», que subsistem, têm aqui uma sugestão e um incentivo não negligenciável. O tráfico transatlântico de escravos constituindo, em perspectiva global, o núcleo temático que sobre si mais tem atraído a intervenção de estudiosos, é igualmente contemplado com novas informações e análises que sobremaneira enriquecem o seu conhecimento. A variedade e a especificidade das questões emergentes directamente da prestação de trabalho e os contextos sociais em que se inserem levantam problemas semânticos e epistemológicos que se patenteiam desde a abordagem documental das realidades comezinhas até à forma literária da sua exposição. O trabalho prestado pelos escravos, o trabalho «forçado» ou «compelido», o trabalho decorrente do «contrato [?]», o trabalho dos «serviçais» - amostragem morfológica com a maior carga simbólica são tratados em contextos vários e as comunicações que os abordam contribuem decididamente para a decifração dos casos postos. Que a questão da equivocidade morfológica e epistemológica é um facto comprova-o a necessidade que instancias internacionais como a Sociedade das Nações e a Organização Internacional do Trabalho sentiram para obterem a definição de «escravatura» a adoptar nas convenções. Afinal a escravatura continua a ser uma questão da pós-modernidade! A comunicação abordando a formação dos preços dos escravos reveste-se de importância particular pelo facto de a análise incidir na área porventura a mais nebulosa do tráfico. Permanecendo embora uma atitude nostálgica inconsequente, a invocação da grandeza imperial subsiste. Integrada na mesma consciência recursiva situa-se a desvalorização se não o desprezo pela memória de quanto é entendido como indo em desfavor da glória colectiva. Para análise da escravatura e seu tráfico na era moderna retomam-se velhos paradigmas como o da redução do seu perfil histórico a mera continuidade de práticas ancestrais nas sociedades de África. Os estudos aqui apresentados pretendem ser um contributo para o avanço do conhecimento nesse tempo e nesse espaço históricos que tanto nos dizem respeito. Pretendem igualmente ser a primeira tentativa para a sistematização de encontros sobre esta temática, que tanto tem para ser actualizada e debatida interdisciplinarmente. |
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Africana Studia nº 8  |
Editorial O n° 8 da Africana Studia apresenta pela primeira vez num volume três conjuntos temáticos: estudos sobre os países lusófonos africanos entre 1975-2005, sobre as sociedades islâmicas africanas e sobre a escravatura africana. Como se compreenderá, este formato não inclui qualquer pretensão enciclopédica. Representa simplesmente a fórmula julgada mais conveniente para sistematizar os resultados de várias linhas de pesquisa que o CEAUP tem desenvolvido e nas quais tem tido o privilégio de contar com a colaboração de notáveis investigadores de outros centros. Sobre o primeiro conjunto, pouco haverá a dizer salvo que a intenção nunca foi a de participar num sacrifício aos deuses das efemérides. O cumprimento dos 30 anos de independências PALOP não encerra qualquer significado simbólico (porquê 30 e não 25 ou 40?), nem estabelece qualquer periodização com significado histórico. Acontece apenas que se torna necessário aproveitar a conjugação de estarem, ao mesmo tempo disponíveis, investigadores com conhecimentos acumulados neste campo e um conjunto de novas fontes, que a distância temporal começou a abrir. Os estudos sobre as sociedades islâmicas e sobre a escravatura africana não têm a especificidade do primeiro conjunto mas constituem nas últimas décadas campos de intenso crescimento bibliográfico a nível mundial. O facto de o CEAUP ter realizado e planear realizar periodicamente encontros científicos sobre estas temáticas justifica, além disso, que tenham na nossa revista um estatuto de rubricas residentes. Uma outra particularidade marca o n°8 da nossa revista, embora desta vez pelo vazio e por um vazio irreversível. O primeiro conjunto temático não conta com quem seria de outro modo uma presença assegurada. Christine Messiant, uma das grandes pesquisadoras sobre a Angola contemporânea, desapareceu a 3 de Janeiro de 2006. A esse acontecimento trágico se deve a ausência de um estudo específico sobre a sociedade angolana. Infelizmente não serão apenas estas páginas que se ressentirão da sua falta. Tanto o CEAUP como a "Africana Studia" podem orgulhar-se de ter contado com o seu entusiasmo, que nunca excluía a análise lucidíssima. Tanto quanto isso é possível dizê-lo em ciência, os estudos africanos vão continuar durante muito tempo a contar com Christine Messiant. |
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