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Revista Africana Studia

Africana Studia nº 9 

Editorial

A história da cartografia portuguesa tem cultivado com particular atenção a época dos descobrimentos e da expansão. No entanto, pouco se sabe sobre os mapas elaborados pelos cartógrafos portugueses nos séculos XIX e XX, quando são notáveis a quantidade e a qualidade das cartas que representam as mais variadas áreas do globo com particular incidência nas colónias portuguesas de África.
O colóquio Cartografar África em Tempo Colonial (c.1876-c.1940) resultou do projecto Cartografia, Política e Territórios Coloniais. Comissão de Cartografia (1883-1936): um registo patrimonial para a compreensão histórica dos problemas actuais, que se propunha proceder à reconstituição virtual da produção e funcionamento da Comissão de Cartografia. Pretendia-se, assim, construir, através do vasto acervo disperso por várias unidades do IICT e outras instituições afins, um instrumento operatório com várias aplicações, desde a cartografia, à política e à diplomacia, até ao estudo das realidades históricas, antropológicas, geográficas, e ambientais das regiões tropicais que foram objecto de missões científicas enviadas aos territórios coloniais.
O período cronológico abrangido por este colóquio é um pouco mais extenso do que a duração da Comissão de Cartografia. Primeiro porque os antecedentes esclarecem as origens e interacções da Comissão e, depois, porque, após a sua extinção, muitos trabalhos foram concluídos pelas instituições que se lhe seguiram.
A terra africana não tinha fronteiras fixas e permanentes. Era habitada por povos cujos chefes podiam guerrear-se pelas riquezas, pelo poder ou pelos caminhos, não tanto pelos territórios. Quando a política internacional demarcou as fronteiras coloniais, atendendo a interesses europeus, faltava ainda conquistar o interior - esses povos que os exércitos coloniais viam mudar de lugar, fugindo-lhes por entre os dedos. De nada serviriam as fronteiras, enquanto as populações não fossem conhecidas e submetidas.
À cartografia dos exploradores científicos - Hermenegildo Capelo, Roberto Ivens, Serpa Pinto, Henrique de Carvalho, Augusto Cardoso - e da própria Comissão de Cartografia, acrescentava-se agora a das Campanhas Militares, dos Serviços Geológicos, Obras Públicas, Serviços Meteorológicos e de qualificados cientistas autónomos.
A conquista, seguida da ordenação administrativa colonial do espaço, decapita as hierarquias políticas africanas, instala o forte militar junto à embala do Soba, constrói estradas e caminhos de ferro. A divisão administrativa primeiro decalca, depois rejeita, por vezes mantêm a realidade africana.
A cartografia manuscrita tudo regista para não apagar as autoridades tradicionais submersas, os potenciais inimigos derrotados ou submetidos por assinatura de tratados e que a qualquer momento podem reorganizar-se para resistir.
Esta cartografia reservada guardou a imagem de uma África pré-colonial que foi sendo submergida à medida que se instalava o sistema colonial; por seu lado, a cartografia impressa recobria o espaço na totalidade. A cartografia divulgada fez ainda coabitar elementos dessa imagem com a reorganização colonial. Depois, as marcas do passado africano foram progressivamente encobertas pela administração militar e civil.
A cartografia colonial, tendo constituído um processo relativamente curto, funciona como um interface cuja abrangência cronológica se estende, por um lado, em direcção ao passado pré-colonial e, por outro, atinge a actualidade, não só pela permanência das fronteiras coloniais mas também pelo reaparecimento da toponímia tradicional, como exemplos mais evidentes.
O estudo deste processo tem a vantagem de nos conduzir a períodos cronológicos muito mais vastos e de contribuir para uma mais ampla compreensão de outros fenómenos: quer dos que ali se repercutem a partir do passado quer dos que se reproduzem no presente.



 
 

Africana Studia nº 10 

Editorial

“Os 500 indivíduos mais ricos do mundo têm um rendimento conjunto maior do que o rendimento das 416 milhões de pessoas mais pobres”. (PNUD).


De um lado temos os ricos, do outro os pobres. «Sempre foi assim, é a história da humanidade», dirão alguns. Talvez, mas é assim quando a Declaração Universal dos Direitos do Homem exige a dignidade de homem, e de cidadão, para todos; quando há mais de meio século se declarou solenemente o combate ao «atraso», à «pobreza», ao «subdesenvolvimento» e se montou uma poderosa indústria da cooperação que engloba toda a panóplia de boas intenções, de declarações e apoios, sábios e políticos, conferências e missões. É assim quando, em nome do «desenvolvimento» se hipoteca o futuro da humanidade rompendo a autoreprodução dos sistemas ecológicos. É assim quando sistematicamente se elaboram projectos para resolver definitivamente os grandes problemas da humanidade – tal como os Objectivos do Milénio para o Desenvolvimento – que obtêm grandes unanimidades políticas e onde desembocam sonhos e recursos, jantaradas e negócios, altruísmos e corrupções.
Décadas de buscas – mais orientadas pelo olfacto do lucro do que pela racionalidade do bem-estar – do desenvolvimento e da inserção destas preocupações, institucionalmente consagradas, na globalização, produziram, apesar de tudo algumas profundas mudanças, que nem sempre foram de acordo com a tendência espontânea da reprodução do sistema: os «desenvolvidos » reproduzindo cumulativamente a riqueza e os subdesenvolvidos reproduzindo a pobreza e a morte prematura. Mas essas rupturas de alteração das realidades locais, nacionais, regionais e internacionais parece não terem passado pela África Subsahariana.
Esta constatação «empírica», tão reveladora em tempos de «pragmatismo», exige reflectir sobre uma imensidade de problemáticas à luz dos conhecimentos actuais. Problemáticas interdisciplinares, interculturais, interparadigmáticas, frequentemente oscilando entre a Ciência e a Moral, a Filosofia e a Política. Problemáticas que frequentemente exigem lucubrações epistemológicas sobre a sua validade, sobre os espaços – simultaneamente conceptuais e geográfico-sociais – da sua aplicabilidade, sobre as metodologias de resolução, sobre a codificação e descodificação na transição da realidade social para a construção dos modelos, sobre os conceitos utilizados, sobre a relação entre transformar e conhecer. Problemáticas e respostas que ora são complementares ora são desarticuladas, ora são conciliáveis ora são contraditórias.
Este número da revista assumiu como prioridade centrar a sua atenção sobre o desenvolvimento – que pode ser adjectivado de «humano», de «local », de «sustentado» ou de qualquer outro epíteto –, que tem de ser uma totalidade para expressar um processo de ruptura e de garantia de acesso à satisfação da necessidade biológica e socialmente básicas a todos os grupos sociais e a todos os seus elementos constitutivos.
Com a modéstia que é imperativo assumir ao tratar de tais «dossiers», apenas pretendemos contribuir para um debate que é universal e multifacetado, lançar pistas de reflexão.
Cabe ao leitor tirar as suas conclusões e fazer chegar até nós as suas opiniões, sendo o site do Centro (http://www.africanos.eu) o local ideal para tal.

Carlos Pimenta
pimenta@fep.up.pt



 
 

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