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Contribuição para a História Postal do Baixo Zambeze 

FRAZÃO, Luís Brito. 2008. Contribuição para a História Postal do Baixo Zambeze. Porto, Campo das Letras

Do Prefácio

1. Este é um livro de história postal. Talvez não seja dificil haver uma aceitação quase espontânea desta etiquetagem: estuda uma sucessão de acontecimentos relacionados com o funcionamento da correspondência numa região durante um período de tempo passado. Mas, por isso mesmo, será interessante reflectirmos um pouco mais sobre o assunto, não nos deixarmos embalar pelas primeiras "evidências".
Se formos ao Google encontramos, nas páginas web em língua portuguesa, 32 700 entradas para "história postal". Se associarmos esta pesquisa a "filatelia" (utilizando em alternativa um conjunto de palavras correlacionadas), aquele número reduz-se para 23 800. Se, alternativamente, a associação for feita com "ensino" (utilizando o mesmo expediente), apenas aparecem 544 entradas, isto é, 2,2% das relacionadas com "filatelia". Se fizermos a procura utilizando a língua francesa, temos 88 200 entradas, 57 100 associadas à filatelia e 2,2% destas relacionadas com o ensino. Finalmente, se se proceder de forma semelhante para "postal history", temos 561 000 entradas, das quais 217 000 relacionadas com a filatelia e 24,5% destas associadas ao ensino. Uma exploração um pouco mais detalhada desta última elevada percentagem leva-nos a cursos avulsos sobre história postal, a investigações científicas nessa área, a diversas iniciativas universitárias.
Estes números dão-nos uma leitura mais rigorosa de uma dupla situação de que já tínhamos uma primeira percepção (enquanto filatelista e universitário):

  • a história postal é dominantemente um estudo relacionado com o coleccionismo, embora tivesse possibilidade de também ser uma investigação científica em sede própria, em instituições associadas ao ensino superior;
  • se esta é uma realidade generalizável à escala mundial, numa comparação entre os EUA/Canadá, por um lado, e a Europa, por outro, facilmente constatamos o pouco labor universitário entre nós.

 

(...)

4. Não terão muitos destes estudos uma exigência de rigor metodológico similar a uma qualquer investigação universitária? Quem se dê ao cuidado de percorrer um pouco as obras de história postal que têm sido publicadas em livros ou em artigos não terá qualquer dificuldade em responder afirmativamente.Apenas para ilustrar esta situação e tendo o expresso cuidado de não referir nenhuma das obras portuguesas de muita valia, que existem, cite-se o estudo de Garcia (2004). O seu livro El Correo en el Renascimiento Europeu. Estudio Postal del Archivo Simón Ruiz (1553-1630) é o resultado de longos anos de trabalho sobre história postal espanhola, consagrado noutras obras, e de três anos de estudo detalhado do "único arquivo de um mercador -banqueiro espanhol do século XVI que se manteve praticamente intacto até aos nossos dias", tendo estudado pormenorizadamente 56721 cartas circuladas, as quais contêm 24 123 "marcas manuscritas, representativas do Correio". Ao longo das 576 páginas em formato A4 afirma-se que:

 

esta investigación se pone de manifiesto en la descripción de las rutas existen tes en la época, la organización postal, la duración de los recorridos, de un lado; y, en el aspecto postal, el estudio de las marcas manuscritas y con signos postales, porteos, franqueos previos, cartas urgentes, cartas acompafiadas de dinero, tomas de razón, correo interior, tarifas y otras muchas modalidades del sistema postal de la época. (Albertino de Figueiredo, in Garcia: 7).

 

Seja história postal centrada num período amplo ou num estreito, tomando como ponto de partida um vasto acervo documental ou uma única peça filatélica, preocupada com períodos históricos remotos ou com acontecimentos recentes ou actuais, retirando conclusões peremptórias ou meramente levantando hipóteses, estamos quase sempre em presença de análises que foram feitas com o máximo rigor e com a preocupação da explicitação da verdade.
Não será que estes estudos fazem parte do património de conhecimentos que devem ser preservados e potenciados, servindo de apoio para outro tipo de trabalhos? A resposta a esta pergunta também é fácil para quem alguma vez lido com estes materiais. Seja o estudo da correspondência entre a cidade do Porto e o resto do mundo durante o cerco da cidade pelas tropas miguelistas, ou a situação das comunicações durante a guerra Franco-Prussiana de 1870-71 e a Comuna de Paris; seja a correspondência dos pescadores da pesca do bacalhau para as suas famílias ou o "correio de bóia" deixado pelos barcos transatlânticos nas águas açorianas desde a II Grande Guerra até um período recente, ou a forma como os militares sul-africanos enviavam correspondência para a família durante as invasões "secretas" de Angola, após a independência deste país; sejam as controvérsias sobre os primeiros selos emitidos na colónia da Guiné, ou o estudo detalhado da correspondência dos prisioneiros nos campos de concentração nazis (veja-se, por exemplo, Lajourdane); seja a correspondência durante a guerra civil americana, ou os expedientes utilizados durante as greves dos correios; seja o estudo dos primeiros cem anos de emissões filatélicas portuguesas (veja-se Marques) ou a forma "expedita" para se enviar correspondência para Livingstone durante a sua expedição em África; sejam muitos outros estudos deste tipo em qualquer período, em qualquer parte do mundo, estamos sempre em presença de investigações que aconselham a utilização de estudos feitos por outros investigadores, o que já acontece, e que podem influenciar outros trabalhos de investigação científica, o que acontece pouco. Acontece pouco porque o "mundo da filatelia" tem forte incomunicabilidade com o "mundo científico".

 

5. A institucionalização da história postal nas universidades e centros de investigação pode criar um ambiente mais favorável às próprias investigações sobre as comunicações escritas, pode aproveitar a proximidade (pelo menos espacial, nem sempre pessoal e raramente institucional) de especialistas de outras áreas convenientes para um estudo mais multidisciplinar; pode ampliar o espaço de troca de ideias (a "comunidade científica" é uma realidade com mais força institucional e impacto que a "comunidade filatélica"), pode aumentar a durabilidade dos conhecimentos adquiridos, pode gerar efeitos multiplicadores bastante mais poderosos.
Obviamente que existem já alguns estudos universitários sobre estas problemáticas, mas eles são muito poucos.

(...)

 

6. Dispensamo-nos de fazer referência à vasta obra do autor no campo da história postal. A sua vastidão e qualidade, cobrindo essencialmente Portugal e as colónias, é tal que dispensa qualquer apresentação. Que não é um historiador de formação e profissão e que o seu doutoramento e actividade profissional sejam bastante distantes tematicamente, nada diz em desfavor, sendo quase uma característica geral nos cultores da história postal no exercício da filatelia. Para terminar gostaria apenas de referir brevemente três aspectos:
a) Se há sempre muito a descobrir em qualquer área do saber, se há muitíssimos aspectos que não estão cobertos pela história postal na Europa ou nos Estados Unidos, o trabalho é ciclópico quando nos referimos a África. Neste continente, prolongando-se a prática europeia de pouca atenção universitária à História Postal, a prática do coleccionismo de selos é muito reduzida, essencialmente em resultado das condições sociais. Apenas na República da África do Sul esta actividade de cultura e de lazer tem alguma expressão. A "guerra dos boers" é provavelmente o acontecimento africano mais estudado do ponto de vista da história postal.
b) Tenho o prazer pessoal de ter dado alguns contributos para a redução desta ignorância colectiva, quer enquanto director de uma revista filatélica, quer enquanto impulsionador de livros electrónicos de filatelia que têm tido uma invejável projecção mundial (ver, sobre África, Fernandes, 20064), quer agora como membro do CEAUP.
c) O Centro de Estudos Africanos está interessado em impulsionar este tipo de estudos de África, apelando a todos os interessados nesta área, a todos que tenham estudos inéditos sobre a história postal desse grande continente. As nossas publicações (tradicionais ou electrónicas, em livro, revista ou documento de trabalho) estão disponíveis para todo e qualquer trabalho de qualidade, ainda não divulgado.

 

Mais não me resta que agradecer a Luís Frazão pelo seu labor e a sua amizade.

 



 
 

Trabalho Forçado Africano: O Caminho de Ida 

Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto (Coord.). 2009. Trabalho Forçado Africano. O Caminho de Ida. Colecção Estudos Africanos. Porto: Edições Húmus.

Prefácio

Graças ao Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto, a historiografia relativa à Escravatura, ao Tráfico de Escravos e ao Trabalho Forçado no contexto da colonização ganhou nova dinâmica. Investigadores da mais diversa proveniência têm emprestado ao fenómeno histórico uma atenção sistemática expressa em colóquios e publicações de que esta mesma é exemplo. Integrada nesse projecto global que prossegue.
A diversidade dos temas abordados converge numa constante: o percurso consequencial da escravatura legal para o trabalho forçado. Evolução nem sempre exibindo contornos de abrandamento das condições gravosas em que se exercia, assim nos colocando face a uma característica essencial do desenvolvimento capitalista. A questão da prestação de trabalho no tempo e no todo do espaço colonial é uma questão maior exactamente porque se reveste dessa categoria ôntica.
O percurso material e moral, desde a sua sociedade de origem, daquele que será o primeiro agente da prosperidade moderna toma, no contexto em análise, a preponderância que lhe atribui a violência paroxística das condições de recrutamento e do significado dos métodos aplicados. Caminho da ignomínia, feito da redução a mercadoria da pessoa humana envolvida e também da deslocação física compulsiva em proporções jamais vistas na história da humanidade.
Este volume centra-se sobre o caminho de ida: o percurso pluriforme que vai da modalidade de tráfico a partir das costas africanas para o Atlântico até ao circuito dos recrutamentos coloniais compulsivos a coberto dos procedimentos mais diversos.
Tudo isso transparece no texto de Maciel Santos, que, a partir dos «contratados », desenvolve uma análise do que foi a procura de mão-de-obra para a cultura do cacau em São Tomé e Príncipe. No enquadramento que estabelece da economia da cultura e do recrutamento de trabalhadores, o autor tem a oportunidade de evidenciar as condições sociais que tipificam esse mesmo recrutamento, que vai ao ponto de nos colocar perante a ambiguidade formal de trabalho «livre» executado por escravos de facto.
Se porventura a cultura colonial do cacau, nomeadamente em São Tomé e Príncipe, de um ponto de vista das implicações sociais, já foi dissecada, a contribuição desta análise de rigor sobre os factores imediatos de produção representa uma inovação em que a presença dos produtores directos retoma a gradação essencial que lhe é devida no processo.
Exemplo também dos vários contornos do recrutamento para o trabalho forçado é o caso da Companhia dos Diamantes de Angola. Todd Cleveland evidencia, não só as agruras da deslocação dos «contratados», como o envolvimento das famílias em tais «vinhas da ira» africanas.
Entretanto, o velho tráfico – agora ilegal – continuava a descobrir caminhos. Colette Dubois introduz-nos numa área tão estimulante como é a do tráfico de escravos a partir da Costa francesa dos somalis nas datas tardias de finais do século XIX e da primeira metade do século XX. A dimensão de que este tráfico se revestiu, atingindo, a sul da costa sudeste africana, a colónia portuguesa de Moçambique, tem aqui um contributo, nomeadamente sobre o tráfico a partir do porto de Tadjoura.
Mas antes de tudo isto, houve três séculos de comércio negreiro lícito. Arlindo Caldeira, em trajectória de debruçamento sistemático sobre o comércio atlântico de escravos, brinda-nos com uma abordagem tão profunda quanto o permite a documentação disponível das condições de transporte de escravos no Atlântico Sul durante o século XVII. Ultrapassando as barreira de tempo e de lugar enunciadas, temos diante dos olhos a imagem do que foi um dos muitos holocaustos ao longo de séculos. As precauções na abordagem documental constituem uma garantia mais da exegese aplicada e transparente nos resultados obtidos. Porventura e simultaneamente a mais equilibrada e mais completa abordagem das condições da travessia atlântica de escravos.
Stacey Sommerdyk, invocando a fraca atenção que tem merecido a intervenção dos Países Baixos no tráfico atlântico de escravos, propõe-se resgatar essa ausência na questão da formação de identidade étnica no contexto desse mesmo tráfico, fazendo incidir a sua atenção sobre a Costa do Luango, mas também sobre as relações entre Portugueses e Holandeses e inevitavelmente a disputa do comércio entre concorrentes, Ingleses e Franceses incluídos.
Gustavo Accioli Lopes analisa o que representou a mão-de-obra fornecida pela Costa da Mina à área servida pelo porto do Recife entre fins do século XVII e a primeira metade do seguinte. O ouro, o tabaco, os escravos constituem a dimensão comparada da absorção de mão-de-obra e das vicissitudes do tráfico específico para Pernambuco.
A abordagem simultânea da escravatura, do seu tráfico e do trabalho forçado tem o mérito de associar expressões tão morfologicamente diferentes quanto operacionalmente convergentes e consecutivas. Se aceitamos a condição de pré-capitalistas como sendo a dos plantadores coloniais, podemos estabelecer o percurso formalmente contraditório com que contribuíram definitivamente para a implantação do capitalismo.
José Capela

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