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» Luís Cabral (1931-2009)

Faleceu o primeiro presidente da República da Guiné-Bissau, país que se mantém mergulhado na instabilidade militar e políticaLuís Cabral

Luís de Almeida Cabral, o primeiro presidente da Guiné-Bissau (entre 1973 e 1980), faleceu em Lisboa a 30 de Maio de 2009. Empenhado desde 1963 na luta armada pela independência da «Guiné Portuguesa» e Cabo Verde, juntamente com o meio-irmão, Amílcar Cabral, foi, após o assassínio deste último, eleito chefe de Estado. A Assembleia Nacional Popular, reunida em Madina do Boé, a 24 de Setembro de 1973, encarregara-se de converter o então secretário-geral-adjunto do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) em presidente da República da Guiné-Bissau.

O resultado da eleição foi reconhecido por Portugal quando os Guineenses venceram a Guerra da Independência (1974), mas em 1980 deu-se um golpe de Estado, chefiado pelo próprio primeiro-ministro, Nino Vieira. O presidente Luís Cabral foi deposto e detido, mas, ao fim de alguns meses, recebeu autorização para sair do país.

Passou então por Cuba, antes de fixar residência na ex-metrópole, Portugal. Nino Vieira tornara-se, entretanto, presidente da Guiné-Bissau. Luís Cabral visitou ainda uma vez a pátria (1999), mas desde 1994 abandonara definitivamente a política activa.

Guerra da Independência da Guiné-Bissau: no 1.º plano, Nino Vieira (à esquerda) e Amílcar Cabral (ao centro)

Em 2009, porém, os acontecimentos precipitaram-se. Em 2 de Março, era assassinado o presidente Nino Vieira; a 30 de Maio, falecia, de causas naturais, o ex-presidente Luís Cabral; e, a 5 de Junho, quando o primeiro-ministro Carlos Gomes Júnior se encontrava em Lisboa para assistir ao funeral daquele antigo chefe de Estado, o ministro e candidato presidencial Baciro Dabó foi morto a tiro na própria residência.

Os serviços de informação guineenses (Direcção-Geral de Informação do Estado) emitiram o seguinte comunicado, a explicar o sucedido: «Temos uma informação sobre uma tentativa de golpe de Estado que seria perpetrado por um grupo de responsáveis políticos, entre os quais Hélder Proença, Roberto Cacheu, Daniel Gomes, Faustino Imbali, Baciro Dabó, Francisco Conduto de Pina, Sandji Fati, Afonto Té e João Monteiro». Todos eles eram ou militares ou dirigentes do PAIGC, e foi determinado que deveriam ser presos.

Os serviços de informação apontavam particularmente Hélder Proença, ex-ministro da Defesa, como o «presumível responsável» da suposta intentona. O antigo membro do Governo nomeado por Nino Vieira foi, porém, morto a 5 de Junho, «numa troca de tiros entre uma força que o ia prender e elementos da sua segurança pessoal», segundo o mesmo comunicado. Proença, que viria de Dacar para «coordenar» as operações do golpe, teria sido alvejado quando seguia de carro na estrada entre Bula e Bissau.

Por sua vez, Baciro Dabó, surpreendido em casa, cerca das 4 horas da madrugada, pela «força que o ia prender», resistiu e foi morto no local. Tanto ele como Proença eram figuras próximas do presidente Vieira, assassinado em Março. E foram abatidos na véspera do início da campanha eleitoral destinada a preencher o supremo cargo da nação.

O secretário-geral das Nações Unidas, o sul-coreano Ban Ki-moon (Ban Gimun), declarou-se «consternado» com a «tendência» para o assassinato de personalidades na Guiné-Bissau e defendeu, tal como o Governo de Portugal, a manutenção da data previamente agendada para as eleições presidenciais: 28 de Junho de 2009. Quanto ao chefe da diplomacia da UE, o espanhol Javier Solana, condenou as mortes de Proença e Dabó e apelou à adopção de medidas para «impedir a impunidade no país».

BIBLIOGRAFIA: Jornal Público, ed. Porto, 1 e 6 de Junho de 2009.

1 comentário(s)
Recordação e Protesto
por Carlos José Gomes Pimenta em 2009-06-26

A propósito deste acontecimento não posso deixar de recordar com alguma emoção que o conheci pessoalmente numa conferência internacional sobre desenvolvimento económico, enquanto era Presidente. Foi, sem dúvida, um verdadeiro homem de Estado, certamente com erros, mas também com muitas virtudes. O protesto é contra o Estado Português que se alheou das cerimónias fúnebres. Tal ausência só desprestigia intelectual, ética e humanamente quem a pratica.