Modernidade e Repressão em Angola

 

 

Índice

  • Editorial (pág.5)
  • Modernidade e Repressão em Angola
  • Inovações e Repressão
    • Fabiana Schleumer - Nas bordas do Rio Kwanza: Inquisição, administração portuguesa e artes mágicas em Angola (pág.13)
    • Tiago C. Sapede -  Le royaume du Kongo, le Ngoyo et Cabinda face à l’expansionnisme commercial portugais (1780-1793) (pág. 29)
    • Cláudia Castelo - Arame farpado, conhecimento e desenvolvimento no Sudoeste de Angola (c.1960-1974) (pág.47)
    • Juliana Bosslet - “Tão português como eles” (pág. 61)
    • Susan A. de Oliveira -  “Urge nos definir”: Poética e política no ativismo angolano (pág. 69)
  • Representações coloniais e pós-coloniais
    • Andrea Marzano - “O que não é segredo não se pode descobrir”. A imprensa e o cotidiano colonial em Luanda (pág.81)
    • André Serdoura -  Arqueologia Militar do Sul de Angola: breve resumo histórico e apontamentos de campo (pág. 101)
    • Maria Alice Vaz de Almeida Mendes Correia - Transformações urbanísticas em Angola – Luanda 1950/1975 (pág. 139)
  • Entrevista
    • Jacinto Rodrigues (pág. 139)
  • África em Debate - Poderes e identidades
    • Pedro Aluízio Resende Leão - A posição política da Santa Sé frente à islamização do Estado da Nigéria na Quarta República (pág. 147)
    • Joëlle Palmieri - Afrique du Sud: le traditionalisme et le masculinisme au secours du pouvoir politique (pág.169)
    • Elisabeth Ceita Vera Cruz - Colonialismo e pós-colonial(lismo): entre ambivalências e ambiguidades discursivas, o compromisso da ciência (pág.193)
  • Notas de leitura
    • René Pélissier - Bisounours et autres puérilités (pág.205)
    • Jorge Ribeiro - Pedro de Pezarat Correia. …da Descolonização. Do protonacionalismo ao pós-colonialismo (pág.213)
    • Maria de Lurdes Morgado Sampaio - Revista textos & pretextos, Angola. Poesia e Prosa, n.º 19, Primavera/Verão 2015 (pág.217)
  • Resumos (pág.225)
  • Legendas das ilustrações (pág.234)

 

Editorial

Este volume da Africana Studia, subordinado ao tema Modernidade e repressão em Angola, incide na história de Angola, um Estado erigido num território desenhado a partir dos devaneios colonialistas, dos conflitos e, bem assim, das concertações diplomáticas na Europa entre finais de oitocentos e inícios de novecentos. A heterogeneidade existente e recriada pelas dinâmicas colonialistas fica indiciada por este conjunto de artigos sobre a Angola da era colonial e do pós-independência.
É sabido, a presença de portugueses nalguns pontos desse território era plurissecular. Mas, nesse passado distante, a dominação não era fácil, desde logo pelo enraizamento dos europeus na terra. Fabiana Schleumer alude à ação da Inquisição na segunda metade do século XVIII, baseando-se num processo iniciado por denúncias de crimes de “Artes Mágicas”. Para a autora, tais “crimes”, de que participavam os reinóis, compreendem-se à luz das debilidades da missionação e do processo de crioulização
no território. Por isso, e apesar do reforço do discurso missionário pela ação inquisitorial, a Igreja não deixou de se pautar pela ambiguidade entre o discurso e a prática, bem como pela conveniente contemporização com as “artes” da terra.
A outro nível, em finais de setecentos os portugueses julgaram ter razões para deixar de contemporizar com os que equivocadamente encarariam como concorrentes. Segundo Thiago Sapede, ao tempo, diferentemente das presenças inglesa e francesa em pontos costeiros, a mais adentrada presença portuguesa firmava-se sobre redes de mercadores luso-africanos e na tentada imposição da vassalagem a chefes locais. Em desvantagem no plano comercial, Portugal tentou-se, em finais do século XVIII, por uma política expansionista, traduzida na tentativa de tomada militar do porto de Cabinda controlado por mercadores franceses. De posse deste porto, os portugueses almejavam dominar as rotas de escravos do interior através da desejada mediação do mani Kongo. Quase de pronto foram desalojados do seu ainda incompleto forte em Cabinda. Em todo o caso, esta tentativa militar dos portugueses na turbulenta década de 1780 como que anunciou as profundas alterações nas décadas posteriores para as várias entidades africanas, entre elas, o reino do Congo.
Em cotejo, o artigo de Cláudia Castelo e o texto inacabado de Juliana Bosslet indiciam as diferenças de exercício do poder no colonialismo tardio – noção usada em sentidos diversos e que importaria clarificar – em contextos rurais e urbanos. Cláudia Castelo alude às vedações de arame farpado como ferramenta e símbolo do “desenvolvimentismo repressivo” no sudoeste de Angola. No final do colonialismo assomava o interesse numa agricultura moderna associada às potencialidades técnicas importadas pelo colonizador. Porém, tal implicava a subversão da propriedade e do
sagaz uso costumeiro da terra, que permitira aos Mucubais, ou Kuvale, recuperar da agressão colonialista das décadas precedentes. Na verdade, baseada no arame farpado, a arrogada superioridade dos empreendimentos colonialistas, que, aliás, quedou por provar, era atrativa por ser suportada por axiomas políticos indiscutíveis num regime colonial ditatorial, axiomas conducentes à irrestrita apropriação da terra pelos colonos. Contra tais discricionariedades, um saber técnico começou a afirmar a insensatez das opções políticas e jurídicas coloniais. Todavia, porque a terra parecia um garante perene de uma futura acumulação, nas instâncias subalternas tendia-se à replicação da cegueira que toldava o processo de formação das decisões na cúpula do regime1. Afinal, recorrentemente o racismo socorria-se de novos quesitos e fetiches – modernização e quejandos – que como que tornavam imperiosa uma apropriação indevida e injustificada de recursos naturais, mormente de terra, em prejuízo dos colonizados. As coniventes ou, quiçá, apenas subservientes autoridades coloniais não só ignoravam o passado de conflitos, como eram incapazes de qualquer avaliação isenta dos resultados económicos dos diversos tipos de exploração pecuária.
A única nota dubitativa sugerida por este interessantíssimo texto é a da caracterização do tardo colonialismo (só) pelo desenvolvimentismo repressivo. Ao tempo, embora prevalecesse a força bruta do poder eivado do racismo, percebe-se que, apesar de hegemónico, o substrato cultural racista já não estava sozinho do cenário colonial2.
As dinâmicas sociais e políticas eram assaz diversas em Luanda, conforme o sugere o texto inacabado de Juliana Bosslet3 sobre a persistência, ilegal mas recorrente, de práticas segregacionistas posteriores à abolição do estatuto do indigenato em 1961. Juliana Bosslet pretendia abordar, não a resistência frontal à segregação, mas a apropriação e o uso do discurso oficial pelos africanos para reivindicação da cidadania, isto é, de direitos no dia-a-dia. Deixou traçada uma resenha da assunção do imperativo da conquista das almas e da preparação institucional para a respetiva concretização.
Apesar do que de impositivo tiveram as visões ideológicas à época da independência, hoje se convirá em que só uma visão condescendente e parcial da história podia alimentar a expectativa de um pós-independência sem confrontos, mormente nas cidades. Ao cabo de décadas em que socialmente pareceu quase irrelevante, o questionamento político tornou-se audível e expressivo por ocasião da independência. Mas seria sufocado e assim permaneceria até há anos.
Susan de Oliveira fala-nos do artivismo nos derradeiros anos do governo de José Eduardo Santos, um momento a entender não como o ocaso natural de um governo longevo, mas como um período marcado pela indignação contra as injustiças sociais e de luta pela democracia. Para a autora, tal dever-se-á ao artivismo, uma nova linguagem política pautada pela estetização e pela dimensão performativa, que lhe conferem um “grande potencial” na replicação de novos agenciamentos na sociedade civil4.

Para a autora, o artivismo afirma-se como uma ação reivindicativa e, simultaneamente, como uma rutura, mormente no tocante à participação e à criação artística. Em jeito de arrogada interpelação à elite política, a violência, a miséria, a degradação humana cotidiana são politizadas numa estética dos corpos e dos eventos oponível à estética capitalista do prazer e do consumo de elite. Nessa medida, a politização através do desempenho performativo denuncia as mazelas sociais resultantes de décadas de um poder inquestionado.
É conhecido o reiterado zelo dos dirigentes na prevenção, enquadramento e contenção de fenómenos de dissidência, desde os de vestes religiosas até aos mais afrontosamente políticos5. Plausivelmente, com mais ou menos sageza, os dirigentes não podiam deixar de atentar no artivismo assente no desempenho performativo tornado aliciante quer pela estetização do protesto, quer pela empatia de tal protesto com o que, embora errática e difusamente, vai lavrando mundo fora.
Conquanto se afigure problemática a ideia de, pela sua natureza e pelas suas causas, o artivismo convocar a possibilidade de repressão por “as várias formas de agir do Estado de Exceção se faze[re]m presentes tanto nos regimes ditatoriais como nos democráticos”, registe-se a opinião de que, para além da esperada atuação das “forças repressoras do Estado angolano”, o que estava em jogo era a capacidade das instituições democráticas se sobreporem à força da repressão do Estado. Ora, arriscaria dizer que não só tal dúvida não se desfez, como, obviamente, as recentes alterações políticas se devem a processos de transição não surpreendentes, antes costumados, no seio dos grupos dominantes em regimes fechados.
As representações de Angola são também os mais ou menos arruinados artefatos de guerras recentes? Na esteira de pesquisas arqueológicas sobre campos militares, o texto de André Serdoura desdobra-se entre uma abordagem assaz sintética e parcelar da história militar de Angola, mormente do sul do território, e a exposição de possibilidades de pesquisas arqueológicas nos locais desses conflitos, de que se fez a atual Angola…
A propósito, queda por saber como vivem e se relacionam as populações com as paisagens pautadas (e, porventura, minadas) pelos vestígios da guerra recente. Ao menos para certas populações, as evocações desta guerra não serão mais intensas6 – porque politicamente mais decisivas – do que as de um passado pleno de agravos como o das categorizações raciais em que se escorava o colonialismo?
Que a legislação colonialista sobre a assimilação funcionava como um mecanismo avesso ao seu pressuposto fim7 demonstra-lo também Andrea Marzano, que inicia o seu texto com a enunciação de uma das encruzilhadas éticas em que se podem
envolver as investigações históricas. À sugestiva pergunta “Não seria a indiferença o caminho mais curto para o esquecimento?” responder-se-á que consentir na indiferença pode levar ao esquecimento e ao não conhecimento, conquanto cumpra lembrar que (querer) não esquecer não se desdobra necessariamente no completo e cabal conhecimento do passado.
Como a autora pretexta, para evidenciar a exploração, a violência e as arbitrariedades do colonialismo, nos jornais encontraria notícias com menção a violência explícita, mormente nas zonas rurais. No entanto, a análise da interação em Luanda, referida por teóricos do luso-tropicalismo como locus privilegiado das supostas peculiaridades do colonialismo português8, pareceu crucial para a desconstrução deste discurso prevalecente até aos dias de hoje. Assim, anúncios inocentes, notas irrelevantes e notícias corriqueiras permitem perceber a naturalização de pressupostos fundamentais do colonialismo, como o racismo, a tendência para a segregação, a inexistência de uma ética valorativa do trabalho e a profunda desumanização dos africanos no imaginário colonial.
A novidade não reside na desconstrução da propaganda do assimilacionismo e da integração no colonialismo quanto nos caminhos que Andrea Marzano escolheu percorrer. A autora pretendeu, ao invés de revelar situações desconhecidas, iluminar aspetos evidentes do colonialismo nas décadas de 1930 e 1940. Comentando anúncios e notícias corriqueiras, enfatizou pressupostos, costumes e características que, de tão óbvias, pareciam não causar nenhum espanto. Em face do rol de fronteiras estabelecidas tacitamente e/ou por via da coerção no quotidiano de Luanda, Andrea Marzano quer recuperar a indignação diante de práticas e representações a não esquecer, práticas e representações naturalizadas nos anos 1930 e 1940 e propositadamente apagadas da memória social portuguesa a partir dos anos 1950.
Precisamente, o colonialismo revelou-se sempre mais plural do que, por exemplo, a sua definição ou a sua evocação para a luta anticolonial. Do texto de Maria Alice Mendes Correia sobre as transformações urbanísticas em Luanda sob o Estado Novo retém-se a fissura no bloco colonialista, embora numa dimensão da vida coletiva sem implicações políticas imediatas.
No domínio urbanístico, aflorava o inconformismo dos técnicos, por vezes, com algum intuito de contrariar o regime do Estado Novo e, em todo o caso, tentando impor algo do que de mais moderno se erguia pelo mundo. Embora sem assunção de significados políticos, também assim sucedeu noutras cidades coloniais, não espantando que a criação urbanística tivesse sido secundada pela edilidade de Luanda ansiosa por atestar o progresso materializado na construção.
Para os cientistas, a interpelação política e ética deveria ser sempre desafiante. É deste modo que se pode ler a entrevista de um dos pioneiros do pensamento ecológico angolano, Jacinto Rodrigues. É assim, com um “balanço do futuro”, que termina esta coletânea de estudos e reflexões sobre as contradições da modernidade de Angola.

Augusto Nascimento*

 

1 Dir-se-á, e com acerto, que as boas vontades de técnicos plasmados em relatórios atentos ao saber vernacular nunca vergaram a insânia da cupidez assente na impunidade colonial e nos imperativos do regime político (vejam-se, por exemplo, os vários casos narrados em Valentim Alexandre, 2017, Contra o vento. Portugal, o império e a maré anticolonial (1945-1960), Lisboa, Círculo de Leitores). Mas tais relatórios não deixavam de denotar fissuras no bloco dos colonos.

2 Se, para além da influência das conjunturas, a verdade também é filha do tempo que valida a análise crítica, não se poderá cotejar com o que se passou depois das independências? Nalguns casos, o modelo de desenvolvimento não terá sido ainda mais repressivo? Afinal, tanto o aprisionamento e a desqualificação do saber pelo Estado colonial quanto o voluntarismo de libertações ditas “verdadeiras”, qualificadas pela ideologia e pela violência, conduziram, se não ao desprezo, pelo menos à desvalorização do saber que, embora produzido no tempo colonial, era ao menos em parte tributário do saber vernacular.

3 Juliana Bosslet não terminou o texto que, não obstante, se publica como forma de a homenagear, assim como ao trabalho que nos deixou. Presença solidária, generosa e cativante, Juliana Bosslet integrava o grupo que se dedica ao estudo do desporto e lazer em África. Este texto era mais uma contribuição que não queremos esquecida (A. Nascimento).

4 Em todo o caso, assinalaria que a simpatia e a admiração pela coragem do desafio não podem obscurecer a perceção dos respetivos limites políticos. Aliás, e conforme sucedeu noutros momentos da história recente de Angola, a dimensão política do irredentismo adveio da repercussão internacional.

5 Acerca da inexistência de alternativas políticas, da por demais débil sociedade civil e, enfim, da atomização dos angolanos por via das diferentes pressões do poder político, consultem-se, para além dos trabalhos de Christine Messiant, os textos de Nuno Vidal em Chabal, Patrick e Vidal, Nuno (ed.), 2007, Angola. The weight of history, Londres: Hurst Publishers.

6 Note-se a intensidade emocional nos dias anteriores e, por fim, no dia do recentíssimo funeral de Jonas Savimbi, intensidade sublinhada pela ausência dos outros angolanos.

7 Além de Conceição Neto, citada pela autora, coteje-se o ensaio de Cahen, Michel, 2015, “Seis teses sobre o trabalho forçado no império português continental em África” in África n.º 35, S. Paulo, USP, pp. 129-155, http://dx.doi.org/10.11606/issn.2526-303X.v0i35p129-155.

8 Em grande medida composto de imagens que inundaram a imprensa e outros meios de comunicação, tal discurso vulgarizouse. Com o seu quê de simplista e de ilusório, tal vulgata fundava-se nas aparências da interação social nos derradeiros anos do colonialismo. De acordo com um processo assaz comum e não necessariamente eivado de intencionalidade política estritamente comandada – de que cada colono teria de ser um agente consciente e, nesse caso, um indivíduo dúplice –, obliterava-se tudo o que se passara anteriormente. Num certo sentido, a descrever alguma realidade, o banalizado luso-tropicalismo descreveria aquela a que se obrigaram os colonos por força da subliminar indução política da metrópole. O luso-tropicalismo atinha-se a uma parte da realidade no ocaso do colonialismo, em todo o caso, assaz distinta da vivida nas décadas precedentes sob um regime colonial ditatorial e de um enquistado racismo.

* FLUL. Centro História da Universidade de Lisboa

 
AFRICANA STUDIA
Revista Internacional de Estudos Africanos/ International Journal of African Studies
Email: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.
 
N.º de registo: 124732
Depósito legal: 138153/99
ISSN: 0874-2375
Editor/Entidade proprietária: Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto - FLUP – Via Panorâmica s/n – 4150-564 Porto
Email: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.
NIF da entidade proprietária: 504045466
Diretor: Maciel Morais Santos (Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)
Secretariado: Carla Delgado
Revisão gráfica e de textos: Henriqueta Antunes
Sede da Redação: FLUP – Via Panorâmica s/n – 4150-564 Porto
Tiragem: 200 exemplares
Periodicidade: Semestral
Design capa: Tipografia Comercial
Execução gráfica: António Cruz & Filho, Lda.
 
Conselho científico/Advisory Board: Adriano Vasco Rodrigues (CEAUP); Alexander Keese (U. Genève/CEAUP); Ana Maria Brito (FLUP); Augusto Nascimento (FLUL); Collette Dubois (U. Aix-en-Provence); Dmitri Bondarenko (Instituto de Estudos Africanos – Moscovo); Eduardo Costa Dias (CEA-ISCTE); Eduardo Medeiros (U. Évora); Emmanuel Tchoumtchoua (U. Douala); Fernando Afonso (Unilab/CEAUP); Jean Gormo (U. Maroua/CEAUP); Joana Pereira Leite (CESA-ISEG); João Garcia (FLUP); José Carlos Venâncio (U. Beira Interior); Malyn Newitt (King’s College); Manuel Rodrigues de Areia (U. Coimbra); Manzambi V. Fernandes (Faculdade de Letras e Ciências Sociais de Luanda)/ CEAUP); Martin Rupiya (UNISA-Pretória); Michel Cahen (IEP–U. Bordéus IV); Mohammed Nadir (CEAUP); Nizar Tadjiti (U. Tetouan/CEAUP); Paul Nugent (U. Edimburgo); Paulo de Carvalho (Faculdade de Letras e Ciências Sociais de Luanda); Philip Havik, (IHMT); Suzanne Daveau (U. Lisboa) e Roland Afungang (CEAUP).
 
Conselho editorial/Editorial Board: Ana Maria Guedes, Anabela Gonzalez Reis, Augusto Nascimento, Carla Delgado, Celina Silva, Flora Oliveira, Francisco Topa, Jorge Ribeiro, Maciel Santos, Mourad Aty e Rui Silva
 
Venda online: http://www.africanos.eu/ceaup/loja.php
Advertência: Proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo desta publicação (na versão em papel ou eletrónica) sem autorização prévia por escrito do CEAUP.
Africana Studia é uma revista publicada com arbitragem científica.
Africana Studia é uma revista da rede Africa-Europe Group for Interdidisciplinary
Studies (AEGIS).
Capa: Edifício em construção. Ondjiva, 2015. Foto de André Serdoura.

 Saara Ocidental - as políticas do impasse

 

 

Índice

  • Editorial (pág.5) 

  • Saara Ocidental – as políticas do impasse

  • Atores diretos e indiretos

    • Pedro Ferreira - Sahara Ocidental: conflito diplomático (1991-2010) e os presumíveis interesses de Marrocos (pág.11)

    • Abdelhak Elaggoune e Mourad Aty - Explaining Algeria’s Nationalist Foreign Policy on the Western Sahara Conflict (pág.31)

    • Jeffrey J. Smith - Western Sahara and the United States: Clientelism and exceptionalism in Africa’s last colony (pág.39)

    • Yahia H. Zoubir - The United States and the question of Western Sahara: A low priority in US Foreign Policy (pág.55)

    • Carolina Jiménez Sánchez - What role for the European Union in the Western Sahara Conflict? (pág.65)

    • Rui Alexandre Novais - The Western Sahara never ending story: A case of organized hypocrisy (pág.79)

    • Sidi Omar- The African Union policies towards the Western Sahara (pág.91)

    • Belkacem Iratni - The Arab League and the Western Sahara Conflict: The politics of a sheer neglect(pág.103)

  • Observadores emergentes

    • Siphamandla Zondi - South Africa’s Position on the Western Sahara and the right of Self-determination: An Afro-decolonial analysis (pág.117) 

    • Wu Wanjun e Pedro Sobral - China’s Non-interference Policy towards Western Sahara Conflict (pág.131)

    • Hang Zhou - China’s Balancing Act in the Western Sahara Conflict (pág.145)

    • Abdurrahim Sıradağ - The dynamics shaping Turkish African Policy and Turkey’s Approach towards the Western Sahara Conflict (pág.157)

    • Mohamed Badine El Yattioui - Le Mexique et les limites de la politique étrangère des grands principes à travers le cas de la RASD (pág.169)

    • Maciel Santos - A RASD e a área lusófona Portugal e o conflito do Saara – contributo para o estudo da 1.ª década (pág.183)

    • Jorge Ribeiro - O longo sequestro de pescadores portugueses em 1980 – Lisboa negoceia de má-fé e engana a Frente Polisário (pág.205)

    • Luís Alberto Ferreira - O dia-a-dia da Polisário há 40 anos pelo primeiro repórter português na RASD (pág.211)

    • Issau Agostinho - Sahara Ocidental, entre a ambiguidade internacional e o idealismo angolano (pág.221)

    • Renatho Costa e Rodrigo Duque Estrada - À margem da margem: a retórica brasileira para não reconhecer a República Árabe Saaraui Democrática (RASD) (pág.237)

    • Dionísio Babo Soares - Para Timor-Leste, a independência do Sahara Ocidental é fundamental (pág. 255)

  • Problemáticas do Saara Ocidental

    • Claudia Barona Castañeda e Jorge Gamaliel Arenas Basurto Modernization and tradition in the Western Sahara, the Sahrawi Constitution (pág.263)

    • Ana Maria Guedes - Can public opinion about Western Sahara’s Cause be revealed by Social Media data analysis? (pág.277)

  • Entrevistas

    • Jatri Aduh (pág.291)

    • Salama Brahim El-Bachir (pág.297)

  • Notas de leitura

    • René Pélissier À la table des Seigneurs... (pág.303)

  • Resumos (pág. 327)

  • Legendas das ilustrações (pág. 346)

     

Editorial 

O primeiro objetivo deste número é contribuir para trazer alguma visibilidade e, esperamos, compreensão, ao impasse que à escala mundial pesa sobre o mais antigo conflito colonial em África.
As políticas de impasse num conflito com mais de quarenta anos não implicam apenas um arrastamento de reuniões e resoluções nos edifícios com ar condicionado das Nações Unidas. Impactam igualmente uma população – a saharaui – que vive divida por um muro militar de 2 720 km: nos campos de refugiados no sul da Argélia, nos territórios libertados sob controlo da RASD (República Árabe Saharaui Democrática), na chamada “prisão a céu aberto” sob ocupação marroquina, na diáspora em busca de trabalho e/ou em fuga.
Durante a última década mesmo a perceção da opinião pública sobre este impasse tendeu a diminuir – por raridade de desenvolvimentos noticiáveis e pela ação combinada do filtro de Marrocos, que os media dominantes nos estados europeus em geral seguem. Nesta parte do mundo não são notícia as violações quotidianas da Convenção de Genebra, da Convenção contra a tortura e maus tratos, das resoluções das Nações Unidas, do Tribunal Internacional e do Tribunal de Justiça Europeia.
O critério seguido foi simples: mobilizamos especialistas das políticas externas dos estados e organizações multilaterais que intervêm diretamente no conflito (os chamados atores diretos), dos principais aliados desses estados (atores indiretos) e de algumas das potências emergentes que “observam”, com maior ou menor abstinência de atos.
A complexidade e a duração deste conflito justificaram que, para casos como o dos Estados Unidos e a China, se apresentasse aqui mais do que uma síntese. Como se verá, os artigos de J. Smith/Zoubir tratam diferentes dimensões da política americana, habitualmente com interesses contraditórios. Também os dois artigos sobre o estado desta questão na China focam diferentemente o mundo chinês – da visibilidade académica aos interesses comerciais dominantes. Em contrapartida, para outros casos – como os de alguns dos principais aliados europeus de Marrocos (França ou a Espanha) – certamente se nota a falta de um tratamento especial, complementar ao que se apresenta sobre o conjunto da União Europeia.
Uma coisa é certa: não se procurou nem resultou deste critério qualquer uniformidade de posições relativamente a este conflito por parte dos especialistas convidados. Em alguns artigos, como por exemplo, os relativos às políticas mexicanas ou angolanas, o ponto de vista adotado aproxima-se mesmo da real politik que o esforço editorial deste número pretende confrontar. Mas a intenção era essa porque denunciar o impasse implicava trazer à luz o que o explica. Voluntária ou involuntariamente, os nossos autores assim procederam.

 

A última secção do dossier cumpre um segundo objetivo: inventariar a pequena caixa negra das políticas dos países da CPLP. Uma imagem exagerada? É conhecido o apoio de Angola e de Timor, por exemplo – mas como tem evoluído e como se tem traduzido? Relativamente a Portugal, é também conhecido o paralelismo que a sua situação de ex-metrópole em Timor teve com a de Espanha no Saara, no mesmo ano de 1975. Mas há um conhecimento público deficiente sobre o contexto dos interesses e das políticas portuguesas – muito diferentes nos dois casos – ao longo das décadas seguintes. O mesmo se pode dizer relativamente às posições e ambiguidades do Brasil, que atravessam vários regimes.
Dois pequenos esclarecimentos sobre outras particularidades deste número.
Contrariamente ao que é pratica na Africana Studia, a secção de debate (Problemáticas) tem relação com o tema do dossier. Não tratando diretamente da diplomacia das potências, foca-se em outras dimensões da realidade saharaui: na sua organização política e do estado da opinião pública. Invertemos assim a ordem de apresentação desta secção, que habitualmente segue a entrevista. De novo se poderá ver, especialmente no artigo sobre os textos constitucionais saharaui a pluralidade de opiniões aqui reunidas.
A entrevista que habitualmente publicamos na sequência dos dossiers propõe-se contribuir trazendo testemunhos de investigadores ou de fontes primárias. Neste número incluímos duas entrevistas. Não pareceu exagerado dar a conhecer duas organizações que por mais desconhecidas e inverosímeis que possam parecer a norte do Mediterrâneo são reais no Saara ocidental: o seu parlamento e a sua central sindical. Ambas mostram que a geopolítica e os interesses “económicos” não têm de nenhuma forma enfraquecido a vontade do povo saharaui, que nos territórios ocupados resistem de forma não violenta respeitando o acordo de cessar-fogo desde 1991.

 

Esta nota editorial cumpre um terceiro objetivo, puramente interno: relembrar um investigador português, prematuramente falecido no ano de arranque deste projeto editorial. Presente nas fases iniciais deste trabalho, sempre ativo em muitos outros, Jaime Guedes (1960-2018) colaborou muitas vezes com a Africana Studia. Não podemos aqui prestar mais do que uma breve evocação a um lúcido e generoso observador participante, que com conhecimento do terreno testemunhou muitas vezes as realidades que aqui se descrevem.

 

Isabel Lourenço*
Maciel Santos**

*CEAUP

** CEAUP

 
AFRICANA STUDIA
Revista Internacional de Estudos Africanos/ International Journal of African Studies
Email: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.
 
N.º de registo: 124732
Depósito legal: 138153/99
ISSN: 0874-2375
Editor/Entidade proprietária: Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto - FLUP – Via Panorâmica s/n – 4150-564 Porto
Email: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.
NIF da entidade proprietária: 504045466
Diretor: Maciel Morais Santos (Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.)
Secretariado: Carla Delgado
Revisão gráfica e de textos: Henriqueta Antunes
Sede da Redação: FLUP – Via Panorâmica s/n – 4150-564 Porto
Tiragem: 200 exemplares
Periodicidade: Semestral
Design capa: Sersilito
Execução gráfica: Sersilito-Empresa Gráfica, Lda.
 
Conselho científico/Advisory Board: Adriano Vasco Rodrigues (CEAUP); Alexander Keese (U. Genève/CEAUP); Ana Maria Brito (FLUP); Augusto Nascimento (FLUL); Collette Dubois (U. Aix-en-Provence); Dmitri Bondarenko (Instituto de Estudos Africanos – Moscovo); Eduardo Costa Dias (CEA-ISCTE); Eduardo Medeiros (U. Évora); Emmanuel Tchoumtchoua (U. Douala); Fernando Afonso (Unilab/CEAUP); Jean Gormo (U. Maroua/CEAUP); Joana Pereira Leite (CESA-ISEG); João Garcia (FLUP); José Carlos Venâncio (U. Beira Interior); Malyn Newitt (King’s College); Manuel Rodrigues de Areia (U. Coimbra); Manzambi V. Fernandes (Faculdade de Letras e Ciências Sociais de Luanda)/ CEAUP); Martin Rupiya (UNISA-Pretória); Michel Cahen (IEP–U. Bordéus IV); Mohammed Nadir (CEAUP); Nizar Tadjiti (U. Tetouan/CEAUP); Paul Nugent (U. Edimburgo); Paulo de Carvalho (Faculdade de Letras e Ciências Sociais de Luanda); Philip Havik, (IHMT); Suzanne Daveau (U. Lisboa) e Roland Afungang (CEAUP).
 
Conselho editorial/Editorial Board: Ana Maria Guedes, Anabela Gonzalez Reis, Celina Silva, Flora Oliveira, Francisco Topa, Isabel Lourenço, Jaime Guedes, Jorge Ribeiro, Maciel Santos, Mourad Aty e Pedro Pinto Leite.
 
Venda online: http://www.africanos.eu/ceaup/loja.php
Advertência: Proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo desta publicação (na versão em papel ou eletrónica) sem autorização prévia por escrito do CEAUP.
Africana Studia é uma revista publicada com arbitragem científica.
Africana Studia é uma revista da rede Africa-Europe Group for Interdidisciplinary
Studies (AEGIS).
Capa: Acampamento Boujdour, Tindouf. Foto: Carmo Matos, 2018.

Apoio

Unidade I&D integrada no projeto com referência UIDB/00495/2020 (DOI 10.54499/UIDB/00495/2020) e UIDP/00495/2020.

 

Contactos

Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto
Via panorâmica, s/n
4150-564 Porto
Portugal

+351 22 607 71 41
ceaup@letras.up.pt